Ontem estreou o nosso novo clipe, da música “Fracasso”. Galera no twitter ficou frenética escrevendo com a tag #clipeFracasso (valeu!) e assim eu pude ler, quando tive tempo, os comentários sobre a estreia. Que delícia poder contar com a tecnologia nessas horas e aprimorar a comunicação com os que gostam do nosso som. Com base nas resenhas da galera, e pra responder perguntas e dúvidas gerais que apareceram lá, eis aqui algumas considerações sobre o clipe de Fracasso:
- Desde sempre, a ideia era ser um clipe simples, direto e SUBJETIVO. Usando apenas um elemento visual – a desconstrução da imagem da personagem- como metáfora para sentimentos internos de inveja, fracasso, decadência, baixa auto-estima. Como se a gente pudesse ver na tela o seu interior: borrado, grotesco, insano; em contraste com o seu exterior: linda, perfeitamente arrumada e sexy, com olhar superior. Percebam que o olhar muda em cada uma das situações. E a maquiagem foi o elemento cênico que encontramos para mandar essa mensagem.
- É um clipe feito de sutilezas e que requer interpretação. São muitos símbolos. Há uma cena, por exemplo, no começo do solo de guitarra onde a personagem aparece já toda borrada, e faz charminho pra câmera, faz cara de modelo. Ela está “se achando”, não percebe que está daquele jeito, acredita na própria ilusão. Outra cena, quase no final: à essa altura ela está completamente surtada e o chapéu insiste em lhe cair da cabeça; ela desesperadamente tenta manter a compostura e seguir adiante. E quando o maquiador entra no final: a “diva” está lá toda empoada e presunçosa, e sempre tem alguém para mimá-la e cuidá-la, a mantendo isolada do mundo real.
- Como tínhamos esse conceito e essa ideia bastante subjetiva, a maioria das coisas que acontecem no clipe é fruto do improviso e do momento. Era o Oscar (diretor) dizer “ação” e deixar um take inteiro rolar, comigo tentando interpretar a música. Tínhamos essa ideia de ir borrando o make, mas não sabíamos, por exemplo, que o Coringa iria aparecer ali. E nem que a cartola poderia cair daquele jeito. E a coisa do cílio postiço tranformado em bigode (quando vi que ele tinha descolado, pensei que aquela diva louca certamente o usaria daquele jeito). E muitas coisas outras. Obviamente a excelente edição do Oscar privilegiou esses pequenos imprevistos que aconteceram e acabaram dando mais sentido à letra.
Sobre os comentários da galera, alguns me chamaram a atenção e aproveito para esclarecê-los:
“ Preferia que tivesse historinha, são só imagens sem sentido”
Já fizemos clipes com historinha várias vezes, já fizemos PB, banda tocando em formação clássica, já fizemos de todo jeito. Queria tentar uma coisa diferente, não queria repetir. As imagens têm sentido, mas é preciso raciocinar e refletir um pouco sobre elas. É preciso ler nas entrelinhas.
“ Queria ver a banda tocando direito, com clareza”
Ops, também já fizemos inúmeras vezes. Oscar veio com a ideia do light painting, que dá um efeito psicodélico bacana, e nós aqui curtimos muito. Talvez a galera tenha achado que a banda apareceu pouco, mas imagino que na hora de editar o diretor tenha sentido que priorizar a transformação do personagem era mais importante pro todo.
“ Senti falta de mais cenários, coisas externas”
O que acontece com aquela personagem é algo tão íntimo que teria que ser mostrado assim: na clausura de uma “caixa preta”, num fundo neutro. Não importa o lugar onde ela está, importa os sentimentos pelos quais ela está passando.
“Esperava uma super produção”
Bem, priorizamos nesse vídeo a simplicidade e a imersão total em UMA ideia. Explorar até o fim uma única coisa, ao invés de enfeitar com badulaques. Não queríamos “encher linguiça”, nem ficar inventando coisa só pra cumprir a obrigatoriedade de parecer uma super produção. A mensagem está lá.
“Faltou criatividade”
Ou será que, pra alguns que viram, faltou imaginação? Fica a dúvida.
“Achei muito parado, cansativo”
Tranquilo. É mesmo um desafio sustentar uma música inteira com apenas uma ideia. Lembrei do clipe do White Stripes feito pela Sofia Coppola. Ele é, do começo ao fim, a Kate Moss fazendo pole dancing com uma fotografia absurda. E eu nunca achei que precisasse de nada além disso naquele vídeo. Ou aquele do Radiohead, “No Surprises”, que o clipe é inteiro com a projeção da letra ao contrário e a água subindo lentamente numa espécie de capacete de vidro... minimalismo, coisa que tenho curtido muito.
Considerações finais:
A grande maioria parece ter gostado, outros poucos não. E isso é saudável. Ninguém tem obrigação de gostar da mesma coisa e nessa horas eu fico com Nelson Rodrigues achando que toda unanimidade é burra. E é muito simples; é gostar ou não gostar, pronto. Sobre as comparações infundadas com Lady Gaga, Avril Lavigne, Miley Cirus e afins, por favor, né. Basta que eu diga que as referências da minha geração são completamente outras.
É apenas mais um vídeo, com uma carga irônica e um humor sarcástico que muitos já entenderam. Muita gente pescou as sutilezas do clipe, muita gente sacou todas essas coisas que citei acima e isso me deixa satisfeita. Adorei os comentários de todos, e quem não viu pode ver no youtube e comentar depois. |